domingo, 10 de janeiro de 2010

V

Bem, acaso pode respeitar-se um pouco sequer o homem que tentou encontrar prazer mesmo no sentimento da própria abjeção? Não digo isto agora devido a algum arrependimento melífluo e, de modo geral, nunca suportei dizer: "Desculpe, papai, não vou mais fazer isto", não porque eu fosse incapaz de dizê-lo, mas, ao contrário, justamnete porque talvez fosse demasiado capaz disso, não é mesmo? Como que de propósito, acontecia-me ser levado a fazê-lo justamente quando não tinha qualquer culpa, nem sequer em pensamento. Isso já era a pior vileza. E ao mesmo tempo eu ficava, no entanto, comovido até a alma, arrependia-me, vertia lágrimas e, naturalmente, ludibriava a mim mesmo, embora absolutamente não fingisse. Era o coração que praticava de certo modo uma torpeza... No caso, não se podia sequeer culpar as leis da natureza, embora, realmente, as leis da natureza me ofendesse sempre e mais que tudo, a vida inteira. Faz mal lembrar tudo isto, e naquele tempo também fazia mal. Com efeito, ao cabo, de um minuto, mais ou menos, já me acontecia perceber, enraivecido, que todos aqueles arrependimentos, todos aqueles estados comovidos, auqelas juras de regeneração, eram mentira, uma repugnante e afetada mentira. Mas perguntai: para que me mutilava e me atormentava assim? Resposta: porqueera muito enfadonho ficar sentado de braços cruzados. Lançava-me, então, nas minhas escapatórioas. Realmente era assim. Observai-vos melhor, senhores, e compreendeis que assim é. Imaginava, para mim mesmo, aventuras e inventava uma vida, para viver ao menos de algum modo. Qnatas vezes me aconteceu, por exemplo, ficar ofendido não por um motivo determinado, mas intencionalmente! E eu mesmo sabia, por vezes, que me ofendera por nada, que aceitara voluntarialmente a ofensa; mas essas coisas levam uma pessoa a tal estado que, por fim, ela realmente fica ofendida. A vida toda algo me arrastava a fazer esses trejeitos, a tal ponto que acabei perdendo poder sobre mim mesmo. De outra feita quis por força apaixonar-me; isto me aconteceu duas vezes. E realmente sofri, meus senhores, asseguro-vos. No fundo da alma não acreditamos estar sofrendo, há uma zombaria qye desponta, mas, assim mesmo, sofria de verdade; tinha ciumes, ficava fora de mim... E tudo isso por enfado, senhores, unicamente por enfado; a inércia me esmagara. Com efeito, o resultado direto e legal da consciencia é a inércia, istoé, o ato de ficar conscientemente sentade de braços cruzados. Já aludi a isto há pouco. Repito, repito com insistência: todos os homens diretos e de ação, são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explica-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutivel para a sua ação e, então, se acalmam; e isto é de fato o mais importante. Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranquilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranquilizarei? Onde estão as minhas cusas primeiras, em que me apóie? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercicio mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrata imediatamente atrás de si outra, ainda anterioir, e assim por diante, até o infinito. Tal é, de fato, a essência de toda a consciencia, do proprio ato de pensar. E assim chegamos de novo as leis da natureza. E qual é, afinal, o resultado? Exatamente o mesmo. Lemvrai-vos: ainda há pouco falei de vingança.Já foi dito: o homem se vinga porque acredita que é justo. Quer dizer que ele encontrou a causa primeira, o fundamento: a justiça. Isto é, como ele está tranquilizado por todos os lados, vinga-se calmamente e com ecito, convicto de que pratica uma ação honesta e justa. Ms eu não vejo nisso justiça nem qualquer espécie de virtude; se começar a vingar-me, será unciamente por maldade. Esta, naturalmente, poderia sobrepujar tudo, todas as minhas duvidas e, de fato, poderia funcionar com pleno exito em lugar da cusa primeira, e justamente por não ser a causa. Mas que fazer se não tenho sequer maldade? O meu rancor, em virtude mais uma vez dessas execráveis leis da consciencia, está sujeito à decomposição química. Quando se repara, o objeto volatizando-se, as razões se evaporam, nãose encontra o culpado, a ofensa não é mais ofensa, mas fatum, algo semelhante à dor de dentes, da qual ninguem é culpado, e por conseguinte, resta mais uma vez a mesma saida, isto é, bater no muro, do modo mais doloroso. Assim, desiste-se, por não se ter encontrado a causaprimeira. Mas experimenta apaixonar-te cegamente pelo teu sentimento, sem discussão, sem uma cusa primeira, repelindo a consciencia ao menos durante esse período. Odeia ou ama, apenas para não ficares desntade de braços cruzados. Depois de amanhã. o mais tardar, começarás a odiar-te, porque lubriaste a ti mesmo, conscientemente. REsultado: uma bolha de sabão e a inércia. Ah, senhores, é possivel que me considere um homem inteligente apenas porque, em toda a vida, não pude começar nem acabar coisa alguma. Admitamos que eu seja um tagarela, um tagarela inofensivo, magoado, como todos nós. Mas que fazer, se a desrinação única e direta de todo homem inteligente é apenas a tagarelice, uma intencionaç tranferência do oco para o vazio? (frase feita?)

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